EDUCAÇÃO AO LONGO DE TODA A VIDA
A educação ocupa cada vez mais
espaço na vida das pessoas à medida que aumenta o papel que desempenha na
dinâmica das sociedades modernas.
Este fenômeno tem várias causas.
A divisão tradicional da existência em períodos distintos — o tempo da infância
e da juventude consagrado à educação escolar, o tempo da atividade profissional
adulta, o tempo da aposentadoria — já não corresponde às realidades da vida
contemporânea e, ainda menos, às exigências do futuro. Hoje em dia, ninguém
pode pensar adquirir, na juventude, uma bagagem inicial de conhecimentos que
lhe baste para toda a vida, porque a evolução rápida do mundo exige uma
atualização contínua dos saberes, mesmo que a educação inicial dos jovens tenda
a prolongar-se. Além disso, a redução do período de atividade profissional, a diminuição
do volume total de horas de trabalho remuneradas e o prolongamento da vida após
a aposentadoria aumentam o tempo disponível para outras atividades.
Paralelamente, a própria
educação está em plena mutação: as possibilidades de aprender oferecidas pela
sociedade exterior à escola multiplicam-se, em todos os domínios, enquanto a
noção de qualificação, no sentido tradicional, é substituída, em muitos setores
modernos de atividade, pelas noções de competência evolutiva e capacidade de
adaptação (cf. capítulo quarto).
A Educação no coração da sociedade
A família constitui o primeiro
lugar de toda e qualquer educação e assegura, por isso, a ligação entre o
afetivo e o cognitivo, assim como a transmissão dos valores e das normas. As
suas relações com o sistema educativo são, por vezes, tidas como relações de
antagonismo: em alguns países em desenvolvimento, os saberes transmitidos pela
escola podem opor-se aos valores tradicionais da família; acontece também que
as famílias mais desfavorecidas encaram, muitas vezes, a instituição escolar
como um mundo estranho de que não compreendem nem os códigos nem as práticas.
Um diálogo verdadeiro entre pais e professores
é, pois, indispensável, porque o desenvolvimento harmonioso das crianças
implica uma complementaridade entre educação escolar e educação familiar. Diga-se,
a propósito, que as experiências de educação pré-escolar dirigidas a populações
desfavorecidas mostraram que a sua eficácia deveu-se muito ao fato das famílias
terem passado a conhecer melhor e a respeitar mais o sistema escolar.
Por outro lado, cada um aprende
ao longo de toda a sua vida no seio do espaço social constituído pela
comunidade a que pertence. Esta varia, por definição, não só de um indivíduo
para outro, mas também no decurso da vida de cada um. A educação deriva da
vontade de viver juntos e de basear a coesão do grupo que é confrontado com
múltiplas obrigações e que seriam particularmente bem-vindas soluções como o
trabalho por tempo reduzido, licenças por paternidade, licenças sabáticas ou
licenças para formação? Uma política do tempo de trabalho que tivesse em conta
estas necessidades,poderia
contribuir muito para conciliar
a vida familiar e a vida profissional, e para ultrapassar a divisão tradicional
de papéis entre homens e mulheres. Desde o começo dos anos oitenta André Gorz
lutou por uma redução substancial da duração da vida ativa. A proposta do
antigo presidente da Comissão Européia, Jacques Delors — é a de chegarmos a uma
duração da vida ativa de 40.000 horas até ao ano 2010 — sublinha a atualidade e
pertinência deste ponto de vista.
DA EDUCAÇÃO BÁSICA À UNIVERSIDADE
O conceito de uma educação que
se desenrola ao longo de toda a vida não leva o autor a negligenciar a
importância da educação formal, em proveito da não-formal ou informal. O autor
pensa, pelo contrário, que é no seio dos sistemas educativos que se forjam as
competências e aptidões que farão com que cada um possa continuar a aprender.
Longe de se oporem, educação formal e informal devem fecundar-se mutuamente.
Por isso, é necessário que os sistemas educativos se adaptem a estas novas
exigências: trata-se, antes de mais nada, de repensar e ligar entre si as
diferentes seqüências educativas, de as ordenar de maneira diferente, de
organizar as transições e de diversificar
os percursos educativos. Assim
se escapará ao dilema que marcou profundamente as políticas de educação:
selecionar multiplicando o insucesso escolar e o risco de exclusão, ou nivelar
por baixo, uniformizando os cursos, em detrimento da promoção dos talentos
individuais.
É no seio da família, mas também
e mais ainda, no nível da educação básica (que inclui em especial os ensinos
pré-primário e primário) que se forjam as atitudes perante a aprendizagem que
durarão ao longo de toda a vida: a chama da criatividade pode começar a brilhar
ou, pelo contrário, extinguir-se; o acesso ao saber pode tornar-se, ou não, uma
realidade. É então que cada um de nós adquire os instrumentos do futuro
desenvolvimento das suas capacidades de raciocinar e imaginar, da capacidade de
discernir, do senso das responsabilidades, é então que aprende a exercer a sua
curiosidade em relação ao mundo que o rodeia. A Comissão está bem consciente
das disparidades intoleráveis que subsistem entre grupos sociais, países, ou diferentes
regiões do mundo: generalizar o acesso a uma educação básica de qualidade
continua a ser um dos grandes desafios dos finais do século XX. É, de fato,
esse o sentido do compromisso que a comunidade internacional subscreveu por
ocasião da Conferência de Jomtien: porque a questão não diz respeito apenas aos
países em desenvolvimento, é necessário que todos dominem os conhecimentos
indispensáveis à compreensão do mundo em que vivem. Este empenho deve ser
renovado, prosseguindo com os esforços já empreendidos. Jaques Delors pensa,
porém, que deve constar da agenda das grandes conferências internacionais do
próximo século um empenho semelhante a
favor do ensino secundário. Este deve ser concebido como uma
“plataforma giratória” na vida
de cada um: é nessa altura que os jovens devem
poder decidir em função dos seus
gostos e aptidões; é aí, também, que podem adquirir as capacidades que os levem
a ter pleno sucesso na vida de adultos. Este ensino deve, pois, estar adaptado
aos diferentes processos de acesso à maturidade por parte dos adolescentes, que
variam conforme as pessoas e os países, assim como às necessidades da vida
econômica e social. Convém diversificar os percursos dos alunos, a fim de
corresponder à diversidade dos talentos, de multiplicar as fases sucessivas de
orientação com possibilidades de recuperação e reorientação. Finalmente, Delors
defende vigorosamente o desenvolvimento do sistema de alternância. Não se
trata, apenas, de aproximar a escola do mundo do trabalho, mas de dar aos
adolescentes os meios de enfrentar as realidades sociais e profissionais e,
deste modo, tomar consciência das suas fraquezas e das suas potencialidades:
tal sistema será para eles, com certeza, um fator de amadurecimento.
